Jornal Página do Estado

Mulher rompe ciclo da violência após 14 anos sendo espancada pelo marido

Adilson Cunha

“Quando me batia muito, às vezes vomitava e ele fazia eu comer meu vômito. Também abria minha boca e cuspia dentro, jogava cerveja na minha cara. Teve uma vez que me jogou para fora do carro, na frente do meu filho pequeno e me deixou na rua, desmaiada”. Esses tristes e chocantes relatos de agressão e humilhação são de Sabrina*, que viveu incontáveis tipos de violência doméstica por 14 anos no casamento.

O medo e insegurança de viver sozinha em Cuiabá, numa cidade em que não conhecia ninguém, fizeram com que continuasse no relacionamento abusivo sem contar com a ajuda de ninguém. “As pessoas falavam que apanhava do meu marido porque não tinha vergonha na cara, que era sem vergonha. Quem está fora é fácil falar, que a gente sofre porque quer, mas não é bem assim”.

Nos três primeiros meses de relacionamento as agressões começaram e ele atribuía à bebida. “Quando separei do meu primeiro marido e vim para Cuiabá, não conhecia ninguém aqui. Nos primeiros dias que a gente morava junto foi até bom, mas depois vieram as agressões com murros, no outro dia pedia perdão, dizia que era por causa da bebida e que não ia mais fazer algo parecido. Só que depois fui vendo que era violento sem beber. Não consegui sair disso porque falava que ia mudar, mas continuou fazendo. Tinha medo de separar e viver sozinha com meus filhos com todas as dificuldades”, afirmou com o olhar triste.

Os dois filhos, um mais velho de 17 anos, do primeiro relacionamento, e o mais novo, hoje com oito anos, fruto do casamento com o agressor, sempre presenciaram as sessões constantes de espancamento, xingamentos e ameaças.

Ela conta que foi difícil romper o ciclo da violência em razão da dependência financeira. Por mais que estivesse trabalhando, o medo de passar necessidade era maior do que as agressões que sofria. “Ele podia ser violento, ruim, me batia muito, mas pensava no meu filho. O meu ex-marido não deixava faltar nada. O congelador e os armários estavam sempre cheios. Por isso, pensava como iria pagar aluguel e a escola particular que meu filho pequeno estudava se separasse, e como ia tirar isso do meu filho? Achava que estava fazendo bem para meu filho, mas só estava prejudicando a vida dele”, reconheceu.

Sabrina lembra que as brigas constantes eram por diversos motivos, entre os quais pelo fato de a casa estar desarrumada aos olhos dele e também pelas inúmeras traições. Como o ex-marido sempre viajou por conta da profissão, “quando chegava em casa e achava que estava desorganizada, me batia. Várias vezes eu e meu filho mais velho acordávamos de madrugada para lavar a área, limpar quintal quando avisava que estava chegando. Aí tinham as traições. Ele sempre arrumava mulher na rua, cada lugar que ia era uma mulher diferente. Chegava em casa com o celular já apagando tudo e muitas vezes elas mandavam e não dava tempo dele apagar. Via tudo, e aí começavam as brigas e só fui descobrir tudo isso quando já estava grávida de cinco meses”, contou.

Os espancamentos não deram trégua nem quando estava gestante. Ele bateu diretamente na barriga dela, com muitos socos e essa cena para ela é a mais difícil de esquecer. “Estávamos nos arrumando para ir ao show de inauguração da Avenida das Torres. Ai, começou a me bater e eu só pensava em proteger minha barriga”, falou com os olhos cheios de lágrima.     Quatro meses após o parto as agressões continuaram. “Me batia e socou minha cabeça no guarda roupa e no berço. Quebrou tudo, e meu filho nunca usou esses dois móveis. Não tive ajuda, ninguém me estendeu a mão pra sair daquela vida”, lamentou.

Teve muita vergonha de contar o que vivia para outras pessoas e até mesmo no trabalho, principalmente em virtude da gestação. Chegava com rosto e braços machucados e sempre dizia que era porque tinha caído, batido no armário ou escorregado. “Os vizinhos sabiam porque escutavam meu filho gritar porque nós dois apanhávamos. Como sempre, ninguém se intrometia porque no outro dia estava tudo bem. Isso é o que todo mundo fala e é uma realidade”, observou com semblante triste.

Sabrina diz que foi obrigada pelas circunstâncias a tomar a decisão de se separar quando o ex-marido tentou colocar fogo na casa com ela e os dois filhos dentro. “Disse a ele que não aguentava mais, que não tinha como a gente continuar e que queria me separar. Foi quando disse que não aceitava e que ninguém iria sair vivo dali. Arrancou o botijão de gás da mangueira, com o isqueiro na mão. Meu filho pequeno, vendo aquilo, juntou as duas mãozinhas e dizia que não queria morrer, pedindo para o pai não fazer aquilo. Até que viu meu outro filho pulando o muro, além de me bater, saiu atrás dele com a enxada para matar. Foi quando a polícia chegou e testemunhou tudo. Então, meu filho perguntou: agora a senhora escolhe, ou eu ou ele porque um de nós vai morrer. Quando chegamos a delegacia eu disse que estava com medida protetiva e ele foi enquadrado na Maria da Penha. Mas, depois foi solto e agora está usando tornozeleira”.

Quando Sabrina o conheceu, ele tinha recém separado de uma outra mulher. Meses depois, quando já estavam casados, descobriu que era a 10ª companheira do ex-marido.

Ela se pergunta por que viveu tanto tempo nessa vida, com tanta violência física e psicológica. “Os nomes mais bonitos que me chamou dentro de casa foram cão, capeta, desgraça, demônio, gorda e lixo. O que mais me dói é não ter saído antes de tudo isso. Vivi 14 anos oprimida, comia direto nas panelas e cheguei a pesar 97 kg. Entrei numa depressão tão profunda achando mesmo que era lixo, que ia morrer de qualquer jeito”.

Separada há nove meses, e com 17 kg a menos, recuperou a autoestima e diz que é uma vencedora, por mais que tenha havido muito julgamento de pessoas que dissessem que não conseguiria superar aquela situação de morte anunciada. Hoje, ela e os filhos, fazem acompanhamento com psicólogo no Centro de Referência em Assistência Social (Creas). O desenvolvimento do filho menor na escola e a comunicação com as outras crianças melhoraram muito após a separação dos pais.

“Não vou dizer que não tenho dificuldade, tenho sim. Trabalho do mesmo jeito que trabalhava, consigo pagar minha água, minha luz, fazer minha compra, pagar a escola do meu filho com toda dificuldade porque é integral. Às vezes olho para o lado e não tenho um real no bolso, mas estou conseguindo sem ajuda dele porque está sumido e não quer pagar pensão. Mesmo com essas dificuldades, não tem preço olhar para meu filho e ouvir dizer que hoje a gente tem uma vida, que estamos vivendo. Hoje conversamos com as pessoas, temos amigos que vão na nossa casa, sem medo”.

Agora, com uma rotina totalmente diferente da que tinha antes, Sabrina diz que consegue respirar, com muito medo por ele estar solto, mesmo usando tornozeleira eletrônica. “Só de chegar em casa e fazer o que quiser já é maravilhoso. Se quiser lavar louça lavo, se não deixo lá na pia, posso deixar para o outro dia. Não tenho palavras para descrever o que sinto, hoje sou feliz. Estou vendo a vida de forma diferente porque saio, vou em aniversários com meu filho. Lá brinca, pula, a gente não tem pressa para voltar para casa. Sabemos que vamos voltar, deitar e dormir e que no outro dia vai estar tudo bem. Estamos fazendo as coisas simples da vida”, disse com sorriso no rosto.

Depois de tudo o que viveu, Sabrina agora vai ajudar uma amiga que está passando pela mesma situação. “Ela tem dois filhos, e o marido xinga, briga e faz outras coisas do mesmo jeito que acontecia comigo. Chamei ela para ficar na minha casa. Vou ajudar porque a mim ninguém ajudou e sei o quanto é importante a ajuda de alguém nesse momento”.

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Fonte: Gazeta Digital
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